quarta-feira, julho 25

Epitáfio virtual


Link recomendado:

http://www.youtube.com/watch?v=JMRF_ZXms9E

Cheguei até esse vídeo hoje, atrasada. Ele está no youtube faz quatro meses. Talvez já tenha sido discutido em uma comunidade específica no orkut ou postado em vários blogs do gênero. Se decidir mostrar a algum amigo um pouco mais ligado que eu, provavelmente vou ouvir que ando desinformada, e receber uma lista de links dos vídeos que realmente são relevantes hoje. Especificamente hoje.

De qualquer maneira, percebi que não quero ser o garoto do vídeo.

A partir de hoje quando quiser procurar algo, não vou mais procurar na wikipédia. Vou até uma biblioteca. Se quiser ler sobre estratégias de marketing, por exemplo, vou comprar mais cinco livros do Kotler e não ler as "regras básicas de marketing e vendas" em algum site específico de linhas gerais. Aliás, vou ler os que já tenho e acabei nem abrindo por achar algo condensadamente mais prático na web.

Se quiser falar com alguém não vou mandar um e-mail, um recado no orkut, uma mensagem no MSN, um torpedo no SMS. Vou telefonar e pedir pra encontrá-lo. No bar, no café ou pra conversar andando no parque. Não vou mais postar em blogs, flogs, vlogs. Não vou mandar testmonial, scrap, comentário. Estou definitivamente saindo da internet.

Até alguns instantes atrás, ficava indignada por saber que as grandes empresas e as grandes agências ainda não estavam no youtube divulgando a marca de seus clientes. Já fazia um bom tempo que a ferramenta estava aí pra ser usada ilimitadamente, mas só agora os blogs estão falando em como as empresas encontraram um meio muito mais barato, muito mais rentável e muito mais ativo. Antes parecia que elas não sabiam muito bem como usar. Agora sim sabem.

Só hoje, em um dos 17 blogs que estão na pasta "favoritos" do meu navegador, e que são consulta obrigatória antes de sair de casa ou de conversar com meus colegas publicitários ou outros que trabalhem com mídia e informação, li sobre novos virais da coca-cola e da Petrobrás. Novos meios de interatividade da Dell, novos concursos patrocinados por grandes marcas incentivando os internautas a criarem seus próprios vídeos, seus próprios jornais, seus próprios álbuns, suas próprias músicas, seus próprios jogos. E ainda uma campanha criada por um publicitário renomado que visa divulgar um selo a ser colocado em algum dos espaços interativos que você utiliza, não como real incentivo às pessoas para que não viajem por congonhas, mas simplesmente para povoarem seus blogs com a novidade. Quanto tempo isso dura? O tempo que duram quando a informação é transformada em bytes.

Antes que alguns me vejam com um pensamento antipublicitário, quero deixar claro que não há nada no mundo que me realize mais que minha profissão. E é por isso mesmo que começo a me preocupar. A construção das grandes marcas não levou o tempo equivalente de um e-mail do Brasil ao Japão. As coisas aconteciam no ritmo de uma carta. Cada palavra era pensada, cada frase precisava conter todo o sentimento daquele momento, cada parágrafo era revisado várias e várias vezes. Não existiam links por toda a página para exemplificar, traduzir, ilustrar o que estava escrito. Era preciso fazer o outro sentir o mesmo que se sentia, era preciso apaixonar quem lia, era preciso conquistar.

Não que com a internet não se atinja muito mais público, não que a marca não seja muito mais falada, não que o produto não seja consumido, na realidade é. Muito mais do que antes. Mas até outro muito mais rápido, muito mais interativo, muito mais atual, muito mais receptivo, muito mais atrativo apareça. E isso acontece várias vezes ao dia, em cada link novo que chega até você na infinidade de meios de recepção que a world wide web proporciona.

E além de tudo, quer saber? Não é só isso. O feitiço também vai virar contra as agências. Em pouco tempo, os clientes vão achar que não precisam mais de grandes redatores, de boas mídias pra decidir o melhor meio para divulgação, do bom planejamento de campanha de uma agência. Um programador, um designer de web, um mailing robusto, e um hacker bem domado poderão tomar conta do trabalho. Eles entendem muito mais desses meios, de sites, de megabytes.

É claro que você pode adaptar sua agência a isso. Na verdade essa é a tendência, diz a web. Mas é bom você lembrar de uma frase que deveria ser lema de quem trabalha com criatividade: "Não siga as tendências, crie-as".

Talvez perceber antes que esses que não seguem tendências, que são copiados pelas massas, já se cansaram do padrão web. Isso porque foram eles quem descobriram o MSN, o orkut, o second life, o blog, o fotolog. Quem realmente importa está buscando algo novo, um jeito novo, alguém novo, um meio novo, uma publicidade nova fora da web.

Se essa revolução vai demorar a acontecer? Não se sabe. Pode começar pequena hoje, com alguns adeptos, pode ser que mudanças mais drásticas sejam necessárias ainda para que se percebam as necessidades dessa mudança. Como vai acontecer? Também não se sabe. Pequenas manifestações, mídia, meios alternativos, tendências... Quem será responsável por ela? Os visionários, os criativos, aqueles com poder de mudança, com influência. Ou eu e você, cansados da interatividade vazia, buscando um pouco mais de sentir, como na época em que se escreviam cartas.