sexta-feira, setembro 7

Eu Quero Escrever

Minhas pernas estão doendo, assim como minhas mãos. Os cotovelos, apoiados na mesa o dia todo também doem, e esses doem ainda mais que as mãos e as pernas. Acho que minha cabeça também dói, mas tem tanta coisa girando dentro dela que não consigo decidir se é dor ou apenas confusão. São quase quatro horas da manhã e não quero dormir. O som das teclas enquanto escrevo é minha única música nessa noite fria de Curitiba. Hoje não quero rock, nem pop, nem samba. Me perdoe Bebel, mas nessa noite você ficou de lado. Eu não quero dormir, quero escrever. Eu não quero comer, quero escrever. Não quero nem mesmo falar, quero apenas escrever. Essa vontade incessante, porém tremendamente essencial me perseguiu por todo o dia.

Reparei nas esquinas da cidade, nas pessoas, nas folhas das árvores varridas pelo vento e descobri que não queria escrever sobre nada disso. Olhei para mim, dentro e fora e decidi que não era sobre mim que queria escrever. Tentei narrar meus passos nesse dia, ordenando palavras e descrevendo ações, mas também não era isso. Roteirizei fantasias na minha cabeça e descobri que hoje não era um dia para ficção. As horas passaram e vi os ponteiros do relógio se cruzarem vinte e quatro vezes. Pensei em escrever sobre o tempo, mas não tenho tempo agora. Então, por fim, decidi escrever sobre a própria vontade de escrever.

Eu escolho cada palavra, e por alguns momentos elas são só minhas. Cada palavra é um exercício de escolha, de poder, de decisão. Ninguém mais está aqui agora. Esse texto é meu. Ele tem corpo, todos podem ver, mas sua alma é um pedaço da minha. Seu sentindo é um pedaço da minha vida. É algo que corre, se desenvolve, se faz real pela própria necessidade. É uma experiência de arte, de criação. É o risco e a vontade de descobrir um final. É trabalhar o meio em busca de um desfecho ideal. É a esperança de transpor em palavras o que trago em meu peito e assim, honrar meus conflitos. É o romance e a paixão. É o amor. É um teste para minha emoção. Escrever é força. É vontade e expressão. Eu acredito que com palavras, posso conduzir ao sorriso, ao delírio ou à depressão. As palavras têm poder, mas agora ele está em minhas mãos!

Escrever está acima do duelo imortal entre o bem e o mal. É uma releitura sintética do "tudo" versus "nada" e do "passado" versus "futuro" resultando na única realidade possível composta por "eu" mais "presente". Cada palavra desse texto é uma parte de mim que nasceu em um tempo "futuro", existiu em uma expressão por um breve "presente" e apenas um espaço a transformou em "passado". Mas cada palavra voltará a ser "presente" cada vez que seja lida. Voltará a ser "passado" e sempre será também futuro, pois o que está escrito é eterno.

Talvez, seja exatamente essa parcela de eternidade que me faça escrever. Talvez seja essa minha ambição, uma vida em forma de palavras. Seja verdadeiro ou um mero devaneio, quero ser lembrado, guardado, lido e relido. Quero emprestar ao mundo tudo o que vi, li, fiz, vivi, experimentei, toquei, senti e pensei, em uma mistura de apaixonantes defeitos e maravilhosas qualidades. Escrevo como pessoa e escrevo para outras pessoas. Escrevo pela singularidade do ser-humano e escrevo para universalidade das diferenças do ser-humano. Escrevo palavras que são só minhas para expressar sentimentos que são só meus. Escrevo para alguém me entender e então eu não vou mais estar sozinho.

Homero Meyer

quinta-feira, setembro 6

A ILHA E O ICEBERG

"Nenhum homem é uma ilha"... Assim dizia o velho ditado, tão claramente equivocado. Quanto mais crescem as cidades, quanto mais nos rodeamos de estranhos, mas nos isolamos em nos mesmos até que um dia, percebemos que para todos os lados que tentamos correr ou fugir, só existe mar! Um oceano, na verdade... Um oceano de faces e olhos que nos perseguem, julgam e testam. Um oceano de palavras e sentimentos quebrados, gestos egoístas e interesses levianos. Em meio a tudo isso, um homem ilhado pode afogar seus sonhos e parar, alí, naquele limitado espaço que a vida lhe concede, apreciar o mar que se transforma ao seu redor e nunca mais recuperar o fogo que lhe tolhia a alma em busca de novas experiências e descobertas, ou... Pode ele tornar-se um Iceberg, uma pedra de gelo capaz de flutuar sem rumo em meio ao oceano de indiferença, ocultando grande parte daquilo que ele realmente é! Um Iceberg flutuando e buscando um caminho de trazer à tona todos os sonhos que guarda submersos...

Homero Meyer

Palavra Vazia Em Noite Fria

Eu sempre quis saber o que acontece quando acabam as palavras, mesmo sem saber se isso pode acontecer. Afinal, palavra é resultado, é consequência. As palavras só deixam de existir ao morrer sua causa, mas isso recorre ao paradoxo de que mesmo a morte de uma causa é uma causa em sí, e por consequência gera palavras.

Alguns até tentam acreditar no silêncio, mas o silêncio não é definitivo. O silêncio também é uma consequência, mas diferente das palavras, nenhum silêncio é imortal e seu fim sempre marca o nascimento de novas palavras.

Mas porque as palavras acabam?! Elas realmente acabam??? De onde elas vem e para onde elas vão?! Palavras só existem entre as bocas e ouvidos, ou estão também entre a mente e o coração?! Seria uma palavra relativa, viajando do passado como causa ao futuro como ação?!

São as palavras ou sentidos que geram transformação? Com silêncio pode haver revolução? As palavras acabam, e quando acabam há uma vontade de gritar. Para mim acabaram agora com um aperto no peito e um nó na garganta.

Talvez seja esse o fim das palavras, elas não morrem para o silêncio, e sim para a desilusão. Palavras só morrem quando morre uma paixão. As palavras acabam sim, mesmo que não tenham por certo essa definição, as palavras acabam quando perdem seu sentido e sua força de expressão. As palavras morrem quando continuamos falando sem ouvir o coração. Minhas palavras morreram hoje. Morreram quando resolvi falar de palavras para negar minha solidão.

Homero Meyer