terça-feira, janeiro 15

O assassinato

A espreita no canto do bar, lá estava ele, de sobretudo preto e barba mal feita.
Tomava uma bebida escura, de colarinho avantajado, que deixara espuma em seu bigode.
Não olhou para a porta em nenhum momento, mesmo quando essa abria e fechava, num compasso indefinido.
O relógio cuco na parede marcava os segundos, que faziam força para não passar.
Estava camuflado atrás da sombra que a pilasta fazia, no canto esquerdo de quem entra.
Dois, três, quatro quartos de hora.
A porta se abriu.
A bela moça de ossos finos e nariz avantajado carregava um rubor na face, pela tarde fria que se embrulhava lá fora.
Ajeitou o cachecol, enquanto passava os olhos calmamente pela sala.
Seu olhar então cruzou o dele, despercebidamente fixo, desde que ela entrou. Ela sorriu sem mostrar os dentes.
Ele levantou sem fazer um único ruído, tirou a pistola prateada por debaixo da roupa e como num de jà vú, onde já mirara dezenas de vezes antes, atirou.
Silêncio.
Na cena noir, o contraste entre o sangue derramando e o chão de taco polido era quase imperceptível. Não causou asco algum em quem assistia, nenhum deles parecia abalado.
Olhavam como fantasmas o corpo estendido. Alguns nem se deram ao trabalho de parar o que faziam. Ninguém levantou os olhos para ele.
Ele limpou o cano, colocou novamente por entre o corpo e a roupa, passou por cima da dama já sem vida e saiu pela porta. Seus olhos fundos, verdes, pareciam cinzas.
Sua missão fora cumprida. Matara a saudade.

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